domingo, 7 de dezembro de 2014

Discussão sobre gênero entre Anitta e Pitty

Acho lamentável que uma discussão como a que ocorreu entre Pitty e Anitta no Altas Horas, na madrugada de hoje, 07/12/14, seja levada a um nível de xingamentos e desrespeito como tenho visto. 

É também nas discussões que refletimos sobre nossas opiniões e mudamos ou reforçamos pensamentos. Pitty teve experiências na vida que a fizeram pensar dessa forma e o mesmo aconteceu com Anitta.

Eu discordo de Anitta porque minhas experiências me fazem perceber que homens e mulheres não são vistos e tratados antes como seres humanos e sim como gêneros distintos e com papéis e permissões bem demarcados na sociedade. Mas isso não me faz melhor que ela ou que qualquer um que pense diferente.

Estou admirando Pitty pela forma como expôs sua opinião, sem depreciar ou desrespeitar Anitta pela divergência e incoerência de seu discurso. Bom seria se as pessoas alimentassem as discussões de forma que isso as aproximassem de outras e não as separassem ainda mais do que já estão pelo fato de terem opiniões distintas.

Isso me faz pensar em Pedagogia da Autonomia (com permissão para usar o "x" para representar todxs): 

Se discrimino..., não posso evidentemente escutá-lxs, e se não xs escuto, não posso falar com elxs, mas a elxs, de cima para baixo. Sobretudo, me proíbo entendê-lxs. Se me sinto superior ao diferente, não importa quem seja, recuso escutá-lo ou escutá-la. O diferente não é o outro a merecer respeito, é um isto ou aquilo, destratável ou desprezível. Se a estrutura do meu pensamento é a única certa, irrepreensível, não posso escutar quem pensa e elabora seu discurso de outra maneira que a minha... (Paulo Freire 2011, p 118).

Acho que isso deveria servir para vários lados, não apenas para quem pensa como Anitta ou como Pitty, e sim para quem se permite (re)pensar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Macaco? Racismo? Onde?

Estudando sobre raça, cor, etnia e movimento negro me deparo com uma notícia sobre o caso Aranha. A história não nos deixa negar que chamar uma pessoa negra de macaca, não tem o mesmo que efeito que dizer o mesmo para uma pessoa branca. Ouvi um comentário a favor da "pena" que a classificava como educativa. Ela chamou o goleiro do time rival de macaco no estádio e foi condenada a comparecer à delegacia 1h antes dos jogos do grêmio e lá ficar até o final da partida durante 10 meses.Talvez seja "penoso" mesmo já que o grêmio é a paixão dela e no calor da emoção junto com a galera "vale tudo", até chamar alguém de macaco, mesmo sem ser racista. Me pergunto que educação é essa? Quantos anos tem essa pessoa? Como educar nesse contexto? Eu entendo que diante de uma situação dessas podemos ignorar ou denunciar e cobrar providências, ambas envolvem o risco de fortalecer o "racismo" a depender de quem está do outro lado. Ignorar pode até enfraquecer o racismo por um tempo. Ao perceber que não teve o efeito desejado de nada adianta continuar. Mas também pode fortalecer, se não funcionou imitando um macaco, vamos gritar "macaco", vamos jogar bananas nele, vamos riscar o carro dele com a palavra "macaco" e se não for com quem ignorou td isso, será com outro negro, em outro momento. Denunciar e cobrar providências também é arriscado porque se a "pena" não for "educativa" o suficiente para inibir outros atos, não vai adiantar muito. Com todos os riscos, se é que eu posso chamar assim, eu ainda prefiro NÃO calar, nem sempre por mim, mas tbm por quem não consegue ser ouvido ou não tem força suficiente para afastar de si esse mal. Lamento que ela esteja experimentando do mesmo veneno, pois como ela disse, "foi no calor da emoção". E é pela emoção que está sendo ameaçada e tendo sua vida revirada. Espero que esse acontecimento traga muito amadurecimento a quem escolheu se envolver com ele do que violência. Que ela possa voltar pra casa e pra sua família assim como o homem que ela chamou de macaco voltou. Talvez essa sim seja a sua maior "pena", e que ela não paga sozinha pq sofrem com ela a família e os amigos. Por via das dúvidas, não chame mais ninguém de macaco, nem negro, nem branco, nem o próprio macaco.

Vídeo da entrevista "medonha" com Fátima Bernardes no programa da Rede Globo "Encontro" https://www.youtube.com/watch?v=FXEbAt-Hugo

sábado, 11 de outubro de 2014

O discurso do diálogo e a prática do "tô nem aí para o que você sabe ou pensa que sabe" em uma aula

Muito me incomoda estar em uma sala de aula e ouvir de uma professora um discurso de inclinação à "dialogicidade freiriana" que não é percebido em sua prática. Principalmente quando estamos em um curso de Pedagogia. Ouvir o outro verdadeiramente é uma das práticas dessa dialogicidade. É certo que nem sempre quando questionamos alguém, queremos verdadeiramente saber sua opinião sobre o que é perguntado. Porém em uma sala de aula esse desinteresse camuflado se torna relevante para avaliar as práticas de professores, o tipo de formação que será proporcionado e a postura que temos enquanto estudantes.
Minha experiência em uma aula me fez escrever sobre essa impressão que tanto me incomodou. Tal incômodo me levou a alguns questionamentos: Por que professores ao "informarem" o plano de suas disciplinas (quando o fazem) não perguntam aos estudantes se eles já leram os textos selecionados ou outros que dialogam com aquele tema escolhido? Por que professores não questionam se os estudantes já ouviram falar sobre o tema que irão discutir e se eles conhecem e o que conhecem acerca do tema? Por que professores não convidam os estudantes a compartilhar com a turma o conhecimento deles sobre os temas que serão discutidos antes de sua fala, interagindo com eles?
Quando professores não fazem questionamentos assim, pode ser um indício de que eles não estão interessados no conhecimento que os estudantes construíram ao longo de sua trajetória. Diante disso, me pergunto se eles "permitirão" que os estudantes resignifiquem as leituras dos textos e se outras leituras, como a de mundo por exemplo, serão possíveis.
Especificamente nesta aula, onde a professora sabia que a leitura do texto programado já havia sido feita pela maioria dos estudantes em um período anterior do mesmo curso, a leitura foi refeita parágrafo a parágrafo. Ao final de cada um deles éramos questionados sobre o que havíamos entendido. As mesmas palavras do texto eram repetidas nas respostas e pouca relação com as nossas experiências ou conhecimento era feita. Em momento algum ouvi a professora questionar se concordávamos ou discordávamos do que estávamos lendo. Me senti trancada na caixa de Gohn (autora do texto).
Ao finalizarmos a sessão de perguntas e respostas, curiosamente a professora perguntou se havíamos gostado do texto. Para alguém que sabia que aquele texto já havia sido lido, eu esperava que ela questionasse o que mudou da primeira leitura para a segunda, e mais, espera que ela questionasse o que tínhamos achado do texto. Para alguns, perguntas "fechadas" como, "gostaram do texto?" pode ter o mesmo sentido de perguntas "abertas" como, "o que acharam do texto?". Para mim, não. A própria ideia de pergunta "fechada" é limitada, as respostas geralmente são "sim" ou "não". A pergunta "aberta" exige uma elaboração, uma explicação. Exige também de quem pergunta disposição para ouvir, e talvez dialogar. Bom, a verdade é que esperei demais! Mas as surpresas não pararam por aí. Ao responder que não havia gostado do texto, esperava ao menos que ela questionasse o por que para dialogarmos "freirianamente". Mais uma vez, esperei demais, demais mesmo. Porque o que tive foi um gesto que sinalizava para mim em alto e bom tom a seguinte frase: E DAÍ?
A medida que amplio e me permito variar minha formação no curso e além dele, amplio também minhas percepções e percebo mais claramente esse desinteresse e desvalorização que professores demonstram pelo conhecimento, pelas experiências e aprendizagem dos estudantes nas aulas em que tenho participado. E me preocupa quando não há um canal de diálogo aberto por quem possui a "caneta vermelha". Eis minha maior dúvida, calar ou dialogar? Se optar pela primeira opção, qual será minha justificativa? E se optar pela segunda, como dialogar com quem parece não se interessar por esse diálogo? Essa situação me leva a pensar também em democracia (individualismo x coletivo), na minha formação humana, no meu papel de estudante e membro de um centro acadêmico e, principalmente, pensar que há uma pergunta inicial e que ela não é desinteressada apesar de ser "fechada". Independente da resposta, eu me obrigo uma justificativa para a primeira ou a elaboração de ao menos um caminho para a segunda. E escrever sobre isso, torna essa cobrança permanente (até que eu apague esse registro e/ou perca essa memória).